Quando a fotografia e o social se completam

O trabalho de Mario Barila

Pedrógrão Grande é uma vila no distrito de Leira, centro de Portugal, com cerca de 2 mil habitantes. Em junho de 2017, suas florestas ganharam o cenário mundial com o maior incêndio no país desde o final do século XIX causado, segundo um relatório técnico, por raios combinados a uma temperatura muito elevada e falta de manutenção das linhas elétricas. Foram mais de 60 mortos, mais de 500 casas destruídas além da devastação florestal, ou seja, uma catástrofe.
 
O brasileiro Mario Barila, fotógrafo militante em diferentes âmbitos, como o social e ecológico, visitou Portugal depois do incêndio, em busca de promover alguma reparação ambiental para as áreas devastadas em Pedrógão Grande. O resultado dessa visita e a outros lugares de Portugal, é um apanhado de belas imagens que serão expostas a partir do dia 15 de junho de 2019, na sede do Consulado Geral de Portugal, em São Paulo. A arrecadação através da venda das suas imagens será revertida para a Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrogrão Grande, que já está recebendo ajuda do mesmo, através de mudas para o reflorestamento da região.
 
Fotografia e ativismo social são parceiros de longa data. Já nos anos 1930, autores icônicos do fotojornalismo como o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) e o húngaro Robert Capa (1904-1954), tiveram atuação social marcante na guerra civil espanhola e na Resistência francesa, durante a Segunda Gerra. Mais recentemente, fotógrafos como o mineiro Sebastião Salgado, vem colaborando com ONGs com ações diretas ou através de doações de suas imagens para fins beneficientes de cunho social ou ecológico.
 
Mario Barila, que foi aluno do fotógrafo catarinense Araquém Alcântara, nome fortemente ligado a questão ambiental, iniciou seu caminho nesta direção de uma maneira surpreendente, quando há 7 anos, fotografando em Ilhabela, no litoral norte paulista. O fotógrafo encontrou uma pequena escola na ilha de Búzios, onde a professora, por falta de maiores recursos, usava o próprio notebook para dar aulas. Surpreendido com pessoas interessadas em comprar essas imagens expostas em uma pousada da Ilha, ele reverteu essa agradável surpresa em benefício das comunidades visitadas, comprando os computadores para ajudar a escola e outros professores, além de doar também imagens para a Secretaria de Cultura de Ilhabela, iniciando assim um processo importantíssimo, que mescla a cultura fotográfica com a prática social.
 
Por gosto pessoal e por uma questão de se posicionar perante uma sociedade deficiente e complicada como a brasileira, o trabalho de Mario Barila prosseguiu em outras direções, primeiramente através de suas afinidades, que como da primeira vez, acabou por encontrar lugares com dificuldades a que se dedicou a amenizá-las, caso de outras ilhas, como as que estão no arquipélago de Fernando de Noronha, litoral de Pernambuco.
Para o arquipélago, o fotógrafo doou insumos necessários para a instalação de um viveiro para produção de mudas, a serem utilizadas no reflorestamento da região, trabalho esse que teve o apoio do Projeto Tamar que promove uma ação conservacionista de espécies ameaçadas de extinção e que conta com recursos do Instituto Chico Mendes de preservação da biodiversidade (ICMBio) filiado ao Ministério do Meio Ambiente.
 
Há muito tempo que historiadores reclinam-se nos desdobramentos práticos da fotografia para além de suas vocações naturais como a arte ou a sua proposta documental. Neste aspecto, mapeamos trabalhos como o do americano Eugene Smith (1918-1978 ) e seu importante trabalho publicado em 1975, sobre a grave poluição da baía de Minamata, no Japão, que afetou a vida de gerações de pescadores locais por conta da contaminação de dejetos por uma indústria local. Suas fotografias chamaram a atenção mundial para os efeitos dramáticos gerados pelo consumo de peixes contaminados.
 
A inserção neste raro caminho criado por Mario Barila, transformou-se em seu Projeto Água Vida, destinado a realizar ações sociais e ambientais com a renda alcançada pela venda das suas fotos. Neste aspecto, as imagens produzidas em Portugal, que descortinam uma proposta inclusiva e positiva são fruto de um trabalho fotográfico de qualidade técnica e composicional como poucos. O contraponto criado pelo autor, com imagens dos casarios centenários portugueses em cidades como Lisboa e Porto, cuja arquitetura é reconhecida internacionalmente, ou sua belíssima paisagem litorânea e campestre nos fazem refletir sobre a questão preservacionista encaminhada por belas fotografia.
 
É neste sentido, na necessidade da preservação do nosso meio ambiente, que seu projeto também entregou mais de 1.000 mudas de árvores até agora, para região que foi drasticamente atingida pelo rompimento da barragem de Mariana em Minas Gerais, um contraponto pelo descumprimento da promessa de reparação da Vale na região a qual se repetiu em Brumadinho. Suas fotografias contemplam não somente Mariana mas também Ouro Preto.
 
Barila é um fotógrafo abastecido pela inquietude e pela busca de imagens que possam ir além do que elas aparentam. Muitas vezes, acaba retornando a lugares conhecidos e já fotografados como a Chapada dos Veadeiros, no estado de Goiás, cuja natureza também foi solapada por um incêndio que acabou com parte do Parque Nacional onde se encontra. De suas fotografia, surgiram parte dos recursos para a construção de um galpão para armazenar e processar sementes que serão usadas no esforço de reflorestar a Chapada.
 
As suas férias em Caraiva, na Bahia, se transformaram em uma exposição e a venda das fotos ajudou a instituição local Caraivaviva e ainda a Tucca, organização que trata e cura crianças e adolescentes carentes com câncer. O fotógrafo também foi para Bonito, no Mato Grosso do Sul, logo que soube que as famosas águas cristalinas de lá estavam ficando turvas pelo avanço desordenado do agronegócio. As lindas imagens foram apresentadas em uma exposição no espaço de eventos da Mitsubishi, no shopping JK Iguatemi, de São Paulo em maio deste ano e também colaboraram para o plantio de milhares de árvores naquela região, em áreas degradadas e sensíveis, como as nascentes dos rios, em parceria com o Instituto das Águas da Serra da Bodoquena ( IASB) e o ICMBio.
 
Difícil não pensar que esta prática, do “renascimento” através das sementes, dos insumos, dos instrumentos básicos proporcionados à reconstrução de grandes perdas através da imagem fotográfica, não se concretizem também no “renascimento” do pensamento humano mais amplo que ultrapassa a teoria para realizações concretas. Em tempos de crises como as nossas, que se somam aquelas mundiais, mais do que nunca uma opção como esta de Mario Barila se faz necessária não somente a arte onde tradicionalmente a fotografia pertence, mas a nossa própria sobrevivência.
 
Juan Esteves
Curador e Crítico de Fotografia.

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